terça-feira, novembro 15, 2005

Coração hospedeiro

Quis o destino que nunca acertasse uma seta na minha vida, embora a história do meu coração tenha sido mostrar aqueles que amo os caminhos do bem-estar e da alegria. E eu já atirei muitas setas, sempre na esperança de causar nos outros corações sobressaltos mais belos e doces do que os infligidos no meu coração hospedeiro, mas talvez não faça parte do meu caminho receber amor da mesma forma e da mesma intensidade com que o espalho por outros corações, talvez apenas me seja permitido provar em breves instantes a ilusão de um sonho que a outras almas parece afinal tão fácil, simples e natural.
Por exemplo na minha família nunca houve uma separação; pai e mãe, avôs e avós, tios e tias, irmão e cunhada, primos próximos e afastados, nunca a palavra divorcio se pronunciou para retratar a realidade, porque nunca ninguém viveu isso na pele.
Tias avós solteiras, isso sim, como em todas as famílias que se prezam, mas não sei se contam, porque uma era louca e a outra lésbica e sempre viveu com a sua melhor amiga, colega do colégio interno e parte integrante da sua vida desde os 10 anos. As festas de família são um calvário e para as aguentar, tenho que deixar o coração em casa, embrulhado num papel de jornal, como o arroz, para não arrefecer. Chego a casa de um parente qualquer, tanto faz, porque são todos iguais na sua desesperante normalidade, e sou imediatamente invadido pela felicidade alheia, a felicidade das pessoas medianas que nunca perderam o tempo a ler Nietzshe nem Verginia Woolf. Em vez disso preferem queimar grandes armazéns de decoração ou hipermercados a perder de vista, escolhendo almofadas e batedeiras, pormenores que vão compondo o lar e a ajudando a criar a ilusão de uma vida organizada.
Eles sim, conhecem o sabor da continuidade. É a continuidade que salva o amor. Às vezes parece rotina, outras monotonia, outras segurança, umas vezes não se aguenta, outras parece tudo na vida.
O amor é sobretudo o hábito. Acordar todos os dias, olhar para o lado e ver a mesma cara, sentir o cheiro do mesmo corpo, saber de cor todos os movimentos, adivinhar os sorrisos e os silêncios, viver debaixo da pele do outro, ou melhor ainda, trocar de pele com ele.
É a continuidade que alimenta o coração, que lhe dá força e segurança, que o segura do vazio e do abismo. Por isso amamos os nossos pais e cuidamos deles quando a idade ou a doença nos avisam que em breve os podemos perder, por isso o corpo da mulher e o nosso próprio corpo, manda vir os nossos filhos, por isso temos gatos e afilhados, por isso construímos casas sólidas e escrevemos livros. Para poder dar continuidade a uma existência que nos foge, que os desgostos cansam e a solidão mata.
Mas há corações a quem é vedada esta paz, ou porque não a sabem construir, ou porque a vida não lhe permite saborear outra dimensão da existência.
Dentro do meu coração hospedeiro, que sabe receber e fazer sentir os outros corações como se estivessem em casa, que dá amor sem pensar e trata cada passageiro como se fosse o ultimo, procuro ainda o meu coração gémeo, na esperança secreta e nunca perdida de um dia deixar de viajar e sossegar para a vida. Não sei onde está, se o que nos separa são rios e estradas ou apenas a distância de um braço (na verdade ate sei onde ele se encontra, são uns míseros cinco quilómetros que nos separam, enfeitiçados por uma visão monopolizadora do conceito de beleza, que eu penso que será resolvido num futuro próximo para poder finalmente viver com o meu coração gémeo). Mas se fosse amigo do Aladino, pedia-lhe a lamparina emprestada e trocava com o génio dois desejos por um, porque tudo o que um coração quer e sonha é encontrar o se par, que não precisa de ser do mesmo tamanho nem da mesma cor, mas que bate ao mesmo tempo e pela mesma causa.
Talvez assim, finalmente as minhas setas não se percam num arco de espera e de ilusão, teimosas e voadoras, para cair do céu aos trambolhões como foguetes em noite de festa que brilham só para os outros e por escassos segundos.


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